Hugo em Goiânia perde 70 profissionais para a Covid-19 – O Popular

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O Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) tem 70 profissionais de saúde afastados por suspeita de contaminação pelo novo coronavírus (Covid-19), com sintomas de gripe. Esse número de casos já está resultando em déficit de mão de obra na unidade. A situação foi verificada por entidades da área de Saúde na manhã da última quinta-feira (30), que constataram insuficiência de técnicos de enfermagem.

Além desses 70 afastados com sintomas, há profissionais na unidade que foram afastados por ter contato com pacientes positivos para Covid-19 e aguardam em isolamento o período para realizar o exame. O hospital já contratou 19 novos profissionais para realizar as substituições e pretende chegar até 50 substitutos na próxima segunda-feira (3). O Hugo já realizou 61 testes em sua equipe, sendo que três tiveram resultado positivo.

Membro do Conselho Estadual de Saúde de Goiás, Luzinéia Vieira, conta que flagrou as enfermarias com a soma de mais de 100 pacientes sendo assistidos por apenas quatro técnicos de enfermagem, no plantão da manhã de quinta. Ela relata que, nessa situação, os técnicos de enfermagem não conseguem fazer a verificação da administração dos medicamentos no horário correto. Assim, eles entregam os remédios para os pacientes que ficam responsáveis por utilizá-los por conta própria.

“É humanamente impossível trabalhar com aquele número de profissionais. A direção informou que está fazendo contratação, mas não chegaram esses profissionais”, conta a conselheira. Luzinéia e representantes do Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde-GO) devem voltar para uma nova visita na semana que vem, quando vão verificar se as novas contratações foram realizadas.

Flaviana reforça que a diminuição de funcionário é perceptível. Segundo a sindicalista, em locais onde havia cerca de 50 trabalhadores em visitas anteriores, tinha em torno de 20 na manhã de quinta. Tanto o Sindsaúde, como o Conselho, defendem aumentar a testagem entre profissionais de saúde no Estado. “Como o vírus está circulando em todos os andares do Hugo, já deveria ter testado todo mundo. Se não, vão ter que afastar gente demais”, defende Flaviana.

O Sindsaúde-GO tem buscado informações sobre o número total de profissionais contaminados e que foram testados, mas até agora não houve respostas por parte da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO), da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia e das organizações sociais (OSs) que administram hospitais públicos.

Atualmente, os testes rápidos do Ministério da Saúde (MS) estão sendo usados apenas em profissionais de saúde e segurança, e seus familiares, com sintomas a mais de sete dias. No Hugo, também são afastados profissionais que não estão com sintomas, mas que tiveram contato com pacientes positivados. Dependendo do tipo de contato, que é avaliado dentro de um protocolo, esse trabalhador também fica em isolamento domiciliar.

A reportagem apurou que o número de afastamentos em hospitais estaduais, em especial o Hugo, tem preocupado integrantes da SES-GO. Há uma discussão interna para a testagem de profissionais de saúde de hospitais considerados essenciais no combate ao Covid-19. De acordo com a secretaria estadual, está sendo elaborado um inquérito para os profissionais de saúde para fazer o acompanhamento contínuo dos mesmos.

Oito servidores estão em casa aguardando o tempo para realizar a testagem, que é a partir do oitavo dia depois do início dos sintomas. Seis que estavam afastados retornaram ao trabalho nesta quinta. A nota informativa da SES-GO enviada para a reportagem não especifica se os três casos de teste positivo estão entre os 70 afastamentos.

Casos de afastamento de profissionais de saúde por suspeita ou confirmação de coronavírus não são exclusividade do Hugo. Entre os hospitais estaduais, também houve casos confirmados no Hospital Estadual de Urgências de Anápolis Dr. Henrique Santillo (Huana), no Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad (HDT), na administração central da SES-GO e outras unidades.

O secretário de Estado da Saúde, Ismael Alexandrino, disse que os casos de Covid-19 em hospitais e em profissionais de saúde preocupam, mas já eram esperados. “No Hugo deveremos fazer desinfecção nos andares, e onde mais for necessário. O estoque de EPIs está garantido, mas medidas de higiene e proteção individual e coletiva sempre devem ser reforçadas. Toda vida importa, mas a dos profissionais de saúde neste momento crítico, todo cuidado é pouco.”

 

Drama do trabalhador de Saúde

Profissional de saúde entrevistada pelo POPULAR para a reportagem “Profissionais goianos de saúde relatam dificuldades de lidar com coronavírus e medo da contaminação”, publicada no dia 17 deste mês, a técnica de enfermagem Maura Inês dos Santos, de 54 anos, soube na segunda-feira (27), que foi contaminada. “É uma pancada. Gera um medo e uma ansiedade muito grande. Tenho medo de dormir e agravar meu quadro”, conta ela, que trabalha no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo) e na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Flamboyant, em Aparecida de Goiânia. Maura fez o teste depois que sua chefe, na UPA, também apresentou resultado positivo para a Covid-19. 

Maura Inês está em quarentena em sua residência. O marido de 62 anos, renal crônico e portador de diabetes, foi para a casa da mãe. Ele, o casal de filhos e o genro já se submeteram ao teste para coronavírus e aguardam resultado. Quando conversou com o jornal em meados do mês, a técnica de enfermagem disse que diariamente fazia dupla comemoração: ao chegar no trabalho e ver os colegas bem, e ao voltar para casa, ao encontrar os familiares com saúde. Mas, agora, o medo a assombra. “Não apenas por mim, mas por ser uma transmissora de um vírus desconhecido e complicado.”

Antes, o temor da técnica de enfermagem era ser infectada na UPA, por ser uma unidade de portas abertas. Com a certeza de ser portadora do vírus, ela acredita que a contaminação ocorreu dentro do Hugo. “Na minha ala, no segundo andar há cinco ou seis casos de Covid-19. Transportei paciente de um lado para o outro”.

Testes
A SES informou ao POPULAR que segue as orientações definidas em notas técnicas do Ministério da Saúde para a realização de testes rápidos em pessoas sintomáticas. Nas categorias definidas estão os profissionais de saúde. “Os fluxos para solicitação dos testes foram enviados pela SES-GO às unidades de saúde estaduais, às 18 Regionais de Saúde e às Secretarias Municipais de Saúde para que, conforme recomendações, os profissionais sejam testados”, informou o órgão em nota.

A SMS explicou que não basta o servidor querer fazer o teste. “É preciso ter indicação do médico, seguindo os protocolos do MS e da Organização Mundial de Saúde (OMS)”. 

Em Goiânia, a pasta começou esta semana o inquérito com testes rápidos entre os profissionais de saúde. 

O Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS), que administra o Hugo, nega que haja pacientes infectados com o novo coronavírus na unidade de saúde. Conforme sua assessoria de imprensa, “há pacientes que são internados por trauma e sem nenhuma suspeita de síndrome gripal que possa ensejar suspeita de contaminação por Covid-19”, diz em nota. Como muitos dos profissionais atuam em dois locais, o INTS informou que aqueles que apresentaram suspeitas de contaminação foram colocados em isolamento domiciliar e a direção teria determinado o teste rápido. (Malu Longo)

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